A declaração de Bento XVI, de que lhe faltava a energia necessária para continuar a empreitada que recaía sobre seus ombros, é importante para refletir sobre a carreira que escolhemos.

Claro que a renúncia do papa somente será compreendida ao longo da história. Assim como em toda religião, o lado obscuro do catolicismo cria condições indecifráveis no curto prazo para quem procura interpretar os acontecimentos do lado de fora de seus domínios. Esperemos a história.

Entretanto, de fato, energia é o elemento mais importante da carreira profissional. Isso ocorre porque toda profissão possui bônus e ônus. Nós escolhemos as carreiras pelo bônus, e as deixamos pelo ônus.

Em geral, quando ainda muito jovens, observamos aqueles que nos inspiram, ou fatos que nos impulsionam para certas profissões. O desejo de ser bombeiro para salvar vidas, ser advogado para lutar pela justiça ou ser engenheiro civil para construir obras são exemplos muito claros.

Entretanto, ao ingressar na carreira, vivenciamos a responsabilidade que é seu cotidiano. O médico que salva vidas tem de lidar com a morte de seus pacientes. O advogado que luta pela justiça pode se ver em um imbróglio com seus sócios. E o engenheiro tem de lidar com a enorme pressão por custos e prazos de uma obra. Toda profissão tem seu ônus. Qual é o seu?

Ele será o responsável pela perda de energia na carreira, se for ignorado. Essa perda ocorre porque a maioria desconhece a rotina e o que acontece no longo prazo em sua profissão. Também ignora como sua vida pessoal é afetada por esses fatores. Além disso, o foco excessivo nas tarefas faz o indivíduo esquecer-se de observar as transformações que vão pelo mundo. E são elas que, por vezes, ferem de morte sua profissão. Por último, poucos pensam em um plano de saída da carreira.

Portanto, algumas ideias são importantes para refletir sobre a condução de nossa vida profissional.

Rotina

A rotina de uma carreira molda muito a vida particular. Algumas profissões exigem que o indivíduo esteja disponível 24 horas por dia. Médicos, bombeiros, gestores de operações industriais, presidentes de empresas são exemplos de carreiras nas quais o indivíduo dificilmente terá momentos prolongados de descanso. No longo prazo, pode ser que seja desgastante esse dia a dia, se a pessoa não estiver preparada para suportá-lo. E, também, para comunicá-lo ao seu par, filhos, família e amigos.

Conhecer a rotina de uma profissão antes de ingressar nela é, portanto, fundamental. Entretanto, o profissional que está no meio de sua carreira, deve se interessar em observar e conhecer como é o fim daqueles que nela se encontram.

O mundo se transforma

Dedicar-se de corpo e alma à sua profissão é algo positivo. Mas, se essa dedicação impede o profissional de atualizar-se e manter-se atento às transformações do mundo, pode ser que ele se veja em uma profissão sem futuro. E sem preparo para mudar. Sugiro, portanto, que todos se preocupem em ler notícias, análises, livros sobre o que há de novo, participar de seminários e palestras em sua área de atuação e também sobre temas inovadores.

Lembre-se: o mundo não muda, se transforma. A diferença é que uma transformação, uma vez ocorrida, não permite que se volte ao estado anterior. Não há como retornar a lava ao interior do vulcão, e a paisagem ao seu redor se modifica após a erupção. Na economia, ocorre o mesmo: a máquina de escrever, a fotografia com filme de 35 mm, a ficha do telefone público e a fita cassete são exemplos de objetos que não voltarão a existir. Assim como as carreiras conectadas à sua produção, comercialização e uso.

Estar atento às transformações do mundo e como elas afetam sua carreira é a competência mais relevante a ser desenvolvida no longo prazo. São elas que determinam a sua permanência, ou não, na profissão que escolheu.

Já pensou em um plano de saída da carreira?

Por último, a perda de energia – quer pelo ônus da rotina, pela transformação econômica, ou mesmo pelo surgimento de uma oportunidade – demanda que o profissional pense em um plano de saída de sua carreira. Por vezes, é frustrante ter de deixar a profissão para a qual nos preparamos com tanto esforço. Em outros momentos, deixá-la pode ser um grande alívio.

Contudo, mesmo em uma nova carreira, o indivíduo novamente terá de pensar sobre as responsabilidades e as realizações que ela possibilita. Não há profissão em que exista somente o bônus.

O importante é ter consciência de que mudar de carreira não é o pior que pode acontecer com você; o pior é insistir em continuar até o fim, sem energia. Pois o ônus pode chegar em forma de um estresse que o levaria a uma doença física ou psicológica de trágicas consequências.

A felicidade não é uma busca, mas um encontro diário para aqueles que possuem energia suficiente para lidar com as transformações que a vida, outras pessoas, o tempo e o mundo impõem a todos. Vamos em frente!

Sílvio Celestino - É autor do livro Conversa de Elevador – Uma Fórmula de Sucesso para sua Carreira. É sócio-fundador da Alliance Coaching. No Twitter: @silviocelestino.

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