Características do Brasil: grande, natureza pródiga, emergente e livre; ao mesmo tempo, baixa educação, violência, corrupção e falta de estruturas básicas.

É o que aponta a pesquisa Delphi sobre brasilidade (disponível em http://www.refletirbrasil.com/brasilidade.html), realizada com 44 personalidades entre março e outubro de 2012 pela C.P.M. Research, com apoio do grupo Oca Brasil. “Conseguimos romper com as estereotipias de carnaval, futebol e constatou-se que existe também um lado sombrio, principalmente na forma como nos comportamos”, afirma Oriana Monarca White, pesquisadora responsável.

Dividida em três fases – entrevista aprofundada, plenária com reapresentação da análise das entrevistas e questionário – a pesquisa Delphi tem como objetivo construir conhecimento, de forma qualitativa. Assim, foram selecionadas lideranças das mais diversas áreas, como empresários, artistas, representantes do governo, educadores e religiosos, que pudessem agregar informações de acordo com suas experiências de vida, profissionais e pessoais.

Os eixos da pesquisa se relacionam a fatores da brasilidade que influenciam o nosso modo de ser, analisados sob pontos de vista positivos e negativos. São eles: Brasileiro, Trabalho, Economia, Política, Cultura, Marcas e Produto, Serviços, Internacional, Tons e DNA. Quanto ao Brasileiro, por exemplo, o resultado aponta que ele é alegre, emotivo, sensual, colaborativo, tolerante e batalhador, mas superficial, descomprometido e sem valores sólidos. Segundo Oriana, a pesquisa mostra ainda que a cordialidade disfarça os matizes preconceituosos e violentos do brasileiro, bastante intensos. No Trabalho, apesar de sermos empreendedores, batalhadores e ‘vestirmos a camisa’, há informalidade, baixa produtividade e dificuldade em respeitar normas e regras. Os Tons são de luzes e sombras: apesar de cores fortes e natureza como imagens positivas, as negativas são de mendigos e baratas. Na avaliação de cheiros, comidas e temperos contrastam com urina e suor.

“Quando falamos sobre Brasil, não pensamos em coisas médias. Ou são lindas, ou horríveis. É preciso avançar, encontrar o meio termo. Como diz Gandhi, o caminho se faz caminhando. Não adianta mais falar que somos um país jovem. Já sabemos quem somos. Está na hora de assumir a fase adulta, deixar a adolescência. Quando isso acontecer, aí sim, vamos progredir", defende Oriana.

Refletir Brasil – o porquê da pesquisa

A pesquisa foi elaborada no âmbito do evento Refletir Brasil, que acontecerá de 20 a 22 de março de 2013 em Paraty (RJ). Com base nos resultados, que serão integralmente apresentados e discutidos no primeiro dia do evento, palestrantes e participantes debaterão sobre temas relacionados à pesquisa, visando a elaborar um manifesto de um novo modelo de Brasil como o país do futuro. Inspirado em evento semelhante promovido pelo sociólogo italiano Domenico De Masi há mais de 20 em Ravello, na Itália, o Refletir Brasil é organizado pelo grupo Oca Brasil e tem como parceiros o S3 Studium (Roma – Itália) e a ESPM. O sociólogo participará dos três dias do evento. Todas as informações, incluindo a programação e ficha de inscrição, estão no site www.refletirbrasil.com.

O que dizem alguns entrevistados da pesquisa:

Elifas Andreato, artista plástico, sobre a brasilidade na Economia – “É preciso responsabilidade, porque ela é necessária não apenas para o desenvolvimento tecnológico e econômico, mas implica também em olhar para quem produz, para quem gera. No sistema econômico existem as pessoas invisíveis. Nós precisamos crescer, melhorar nossos produtos, mas é preciso responsabilidade com aqueles que produzem, que realizam, e esses são os que não recebem olhar e atenção, que têm os piores sistemas de saúde, as piores escolas, porque dependem da rede pública. O empresariado brasileiro precisa encarar a responsabilidade, não apenas com o compromisso de crescer, mas também com as pessoas que produzem”.

Roberto Klabin, presidente e fundador da ONG SOS Mata Atlântica, sobre as relações profissionais – “Há aspectos positivos e negativos. Sobre os negativos, tem muito aquela coisa do “coitadinho”, errou e passa a mão na cabeça. Isso a gente vê em muitas situações onde você não enfrenta um problema por não querer ofender ou ficar mal com a pessoa. Essa mentalidade está mudando na medida em que há profissionalização. Outra coisa ruim é que hoje em dia, no Brasil, a mulher não tem a mesma oportunidade de trabalho que os homens, nem o mesmo tratamento. Sinto que isso vai evoluir, mas sinto que essas coisas ainda atrapalham muitas vezes a maneira como podemos trabalhar. Na medida em que nos diferenciamos, saímos de uma influência europeia, nos aproximamos mais de uma influência americana na hora de fazer negócios e trabalhar; ficaremos cada vez mais objetivos e diretos, com as coisas positivas e negativas que isso traz”.

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1 Comentário:

tenho particular desprazer toda vez que leio: um estudo. Este parece ser um estudo sério de nossa personalidade, chega de tentar dizer que somos bonzinhos quando somos o país que mais mata a bala no mundo, que os políticos são ruins, quando são parcela da população e eleitos por nós, "acidentes" de carro sem comentário, respeito ao próximo nos níveis mais básicos inexistente, decadência musical e adoração à um esporte beirando o fanatismo, em resumo um povinho.