Quanto vale um cafezinho? Não o seu preço fixado no cardápio. Se for possível mensurar, qual o valor que ele tem para você?

A Teoria Neoclássica assume que os preços de todos os bens e serviços negociados na economia são determinados pela “mão invisível” do mercado. Em sua abordagem, parte do princípio da atomização dos agentes, em que cada indivíduo ou empresa é pequeno o suficiente a ponto de não conseguir deslocar os preços de seu equilíbrio.

Se pensarmos em nossas atividades de consumo corriqueiras, as coisas acontecem mais ou menos dessa maneira. Desde um simples cafezinho até a aquisição de um imóvel, nossas intervenções são praticamente desprezíveis quando comparadas ao volume total do respectivo mercado, o que nos reduz a uma dimensão atômica sem o potencial para promover deslocamentos na curva de demanda. Quando essa condição é disseminada por todos os participantes da economia, podemos dizer que atuamos em um ambiente de concorrência perfeita. Obviamente, em realidade, essa ideia se aplica mais a famílias e pequenas empresas do que a grandes empresas e conglomerados.

Embora o mundo capitalista funcione nesse paradigma, um novo conceito desafia a relação estabelecida entre compradores e vendedores. Trata-se de uma política conhecida como sistema do preço justo, na qual cada cliente decide o preço que deseja pagar pelo produto adquirido ou serviço prestado. A prática ainda é pouco comum, mas já pode ser vista em alguns estabelecimentos. Não a conhecia até decidir tomar um cafezinho e me deparar com a situação de avaliar o seu valor justo. De imediato, quase que por instinto, comecei a pensar em questões custo de fabricação, esforço de produção, qualidade e satisfação. Em poucos segundos, mais de 200 anos de teoria econômica se passaram em minha cabeça.

A Teoria do Valor pode ser definida como a área do conhecimento que estuda o significado que damos, no uso de nossa razão, a tudo com o que nos relacionamos, seja em uma abordagem ética, estética, moral, religiosa ou econômica. Nessa última concepção, os estudiosos se preocupam em conhecer os determinantes dos valores de troca das mercadorias, isto é, seus preços em termos relativos. Como bem avaliou Ricardo III, na peça de Shakespeare, “meu reino por um cavalo”. O cavalo, como se sabe, representava a possibilidade de fuga e chance de sobrevivência. Um preço justo.

Desde a antiguidade essas questões já instigavam diversos pensadores. Aristóteles já registrara que todo bem possui valor não somente pelo benefício de seu uso, mas também como mercadoria de troca. Mas o que determinaria esse valor de troca? Foi a partir dos textos dos economistas clássicos do séc. XVIII que as ideias começaram a tomar forma de teoria, em um arcabouço mais abrangente e consistente. Na obra que inaugura o estudo da Economia como um campo distinto do conhecimento, abreviada por “A Riqueza das Nações”, Adam Smith dedica integralmente um de seus livros para apresentar sua teoria do valor. Nele, expõe os conceitos fundamentais da teoria do valor-trabalho, a qual posteriormente seria utilizada por David Ricardo e Karl Marx no desenvolvimento de suas obras. Seu argumento central reside na ideia de que o valor das mercadorias está diretamente associado à quantidade de trabalho utilizada em sua obtenção. Elaborado anteriormente por John Law, o paradoxo da água e do diamante, no qual um produto essencial à vida é menos valioso do que outro supérfluo, é utilizado por Smith como referência para justificar que as mercadorias com alto valor de uso normalmente possuem baixo valor de troca. Nesse sentido, desenvolve uma teoria para explicar a determinação dos valores de troca das mercadorias dissociada de aspectos relacionados à sua utilidade.

Numa sociedade primitiva, por exemplo, o tempo necessário para caçar cada animal determinaria seu preço relativo, seu valor de troca. Numa sociedade mais sofisticada, Smith reconhecia que o valor das mercadorias dependeria da remuneração de outros fatores de produção, tais como terra e capital. Ricardo, em oposição, defendia que o capital acumulado era fruto de trabalho anterior e, assim, mesmo em uma sociedade capitalista o valor das mercadorias seria determinado pela quantidade de trabalho ao longo do tempo. Essa visão foi utilizada por Marx em sua abordagem histórico-social da teoria do valor. Numa elaboração mais abstrata, o autor alemão argumenta que o valor de troca só existe em condições sociais específicas, sendo a força de trabalho o fundamento de todo o valor.

Deveria, então, avaliar o cafezinho com base apenas no trabalho empregado em sua produção? E se o cafezinho estivesse péssimo, ainda assim deveria pagar algo por ele somente pelo fato de ter consumido algum trabalho?

Outra vertente da teoria do valor surge a partir do desenvolvimento do Utilitarismo, proposto por Jeremy Bentham. O próprio filósofo reconhece que se utilizou de conceitos anteriores para elaborar sua doutrina ética. Epícuro, para citar um exemplo, já havia dito bem antes que o prazer é o princípio de toda preferência e de toda a aversão. Bentham, no entanto, foi responsável por elaborar os fundamentos filosóficos dessa corrente que reconhecia o caráter competitivo e, sobretudo, egoísta do ser humano na busca exclusiva de seu interesse próprio.

Smith, Ricardo e Marx reconheciam a necessidade da existência do valor de uso para que uma mercadoria tivesse valor de troca. No entanto, não acreditavam numa relação consistente entre ambos. Ao contrário, ao estabelecer o princípio da utilidade, segundo o qual toda ação humana deve ser conduzida em função da variação do bem estar das partes envolvidas, Bentham afirma categoricamente que o valor de uso consiste na base do valor de troca. Em suas palavras, “todo valor se baseia na utilidade”.

A utilidade de um bem, portanto, seria o fator determinante de seu valor. Mas como analisar o paradoxo da água e do diamante diante desse novo arcabouço? A água, sendo útil para nos mantermos vivos, não deveria ter maior valor de troca do que o diamante? Bentham não resolve essa questão de forma conclusiva, mas deixa algo encaminhado ao dizer que “Se se puder ter toda a quantidade de água que se precisa, o excesso não tem valor algum”. Essa visão está associada a um conceito fundamental da economia neoclássica, a utilidade marginal. O valor de troca, dessa maneira, não estaria associado à utilidade total proporcionada por uma mercadoria, mas à sua utilidade marginal, ou seja, ao ganho de utilidade adicional provocado por um pequeno incremento em seu consumo. Essas ideias foram trabalhadas de forma isolada e simultânea por William Jevons, Carl Menger e Léon Walras e deram origem à versão da teoria do valor-utilidade presente na teoria econômica predominante até os dias de hoje.

Alguns segundos depois, confesso que a tarefa gerou-me certo desconforto. Em vez de simplesmente apresentar o cartão ou o dinheiro, fui colocado na situação de julgar o valor de um bem. E não apenas questões quantitativas estavam em jogo. Aspectos relativos aos valores morais entraram em cena. Numa situação dessas, um agente puramente racional e maximizador de riqueza se disporia a pagar apenas um único centavo. Nesse momento, sua lógica econômica entraria em conflito com valores associados à noção de justiça em seu comportamento. Na definição de Oscar Wilde para o cínico (e do economista para alguns engraçadinhos), trata-se daquele que sabe o preço de tudo, mas não sabe o valor de nada. Diante de tanta reflexão, bastou-me lembrar do preço pago no dia anterior em outro local e dos ensinamentos de Friedrich Hayek, nos quais o sistema de preços deve ser visto como um mecanismo de difusão da informação. Olhar para o mercado parece bem mais simples, não?

Vinicius Ratton Brandi - É professor de Finanças do Ibmec-DF.

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